Furia Em Duas — Rodas

O motorista do Fiesta – um senhor de cabelos grisalhos, óculos de leitura pendurado no pescoço – não o viu. Estava ao telefone, ouvindo a filha dizer que havia passado no vestibular. Ele sorria. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia.

Sentado no concreto molhado, com os carros cortando a noite ao lado, ele tirou o capacete. A garoa misturou-se às lágrimas. Não havia ninguém ferido. Não havia batida. Apenas o eco do que poderia ter sido. furia em duas rodas

Veio de dentro.

Um táxi fechou a passagem na altura do Carrefour. Sem pensar, Bruno enfiou a moto no corredor entre o táxi e uma carreta. Menos de dois centímetros de cada lado. A fúria sussurrou: “Você não é ninguém. Prova que é alguém.” Ele provou. O motorista do Fiesta – um senhor de

Aquele era seu território. Ele conhecia cada remendo no asfalto, cada valeta traiçoeira sob as pontes. Pilotava há oito anos, desde os dezoito, e a cidade se tornara uma extensão de seus nervos. Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia

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